15 de mar de 2017

Como se descobre que ama?


Se descobre que ama ...
começando pela gramática,
pelo português,
pois não se atenta a métrica,
nas regras da próclise
ou na poética.

Se descobre que ama...
na linguagem corporal,
dessa que revela a alma,
que não se acalma,
não sendo tampouco banal.

Se descobre que ama ...
nos atos de simplicidade
na espera e saudade
no despertar da intimidade.

Se descobre que ama ...
para alguns ao comer lasanha
ou ainda salmão,
outros ao comer coração.

Se descobre que ama ...
não ao comer um coração qualquer,
mas aquele da mulher,
dessa que te envolve,
que realiza ritual,
em pleno carnaval.
Um ritual antropofágico,
místico, misterioso, mágico.

Sr descobre que ama ...
com o coração no tacho,
em plena fervura,
estando temperado,
sem olho grosso,
mas com pitadas de sal,
folhas da terra e sangue primitivo.
Esse incendeia o instinto.

Se descobre que ama...
quando o coração é comido,
já tendo sido cozido 
ele ainda meio mole
Ou quase derretido.



Se descobre que ama...
vivendo o profano e o sagrado.
comendo o coração de forma ritual,
na avenida de maneira canibal.

Se descobre que ama...
ao flertar com Thanatos,
ser impulsionado por Eros,
para então,
comer coração com muito feijão.

Se descobre que ama...
na procissão carnavalesca,
naquela que é festa,
mas também é guerra, orgasmo e violência,
sem decência ou clemência!

Se descobre que ama ...
entre o carnaval e a quaresma, para uns,
já para outros é o inverso.

Se descobre que ama ...
nessa inversão,
do belo ao grotesco,
na inversão do código vigente,
tudo sem um gerente.

Se descobre que ama ...
ao se fazer a atualização da narrativa mítica,
essa erótica, 
que passa por Orfeu, Dionísio, Jesus,
tudo em um carnaval
festejando cada natal.

Sr descobre que ama...
durante o ritual dionisíaco,
na passagem da carruagem,
hoje um trio elétrico,
algo tipicamente doméstico.
Uma perda irreparável.
Ficaremos com esse lamento e sem descoberta,
o trio não substitui a carruagem,
pois nele não há aragem.

Se descobre que ama...
ao ficar na cama
e doar o coração para ser comido,
tudo feito a dois,
e jamais num depois.
O comer é uma relação de entrega,
sem promiscuidade,
apenas amorosidade.

Se descobre que ama...                        
ao mastigar o coração,
ao tritura-lo nos dentes,
de maneira intencional
e absolutamente infernal.

Se descobre que ama...
ao sentir o gosto do coração,
o gosto dessa verdade,
que está sempre em movimento,
tal qual um arlequim sem idade.

Se descobre que ama...
quando se dá conta que a verdade não é propriedade,
seja de um orador, escritor, escultor ou pintor,
cientista, filósofo ou amador,
a verdade é do comido e do comedor.

Sr descobre que ama...
quando se tem o coração comido,
totalmente absorvido,
ao que se diz que foi untado, melado. mesclado.

Se descobre que ama...
nos versos em polifônia,
seja em Assis,
aquele Machado,
ou em Francisco.
O poeta e o santo.
Um belo casamento.

Se descobre que ama...
quando ao comer o coração do outro
se percebe,
que o homem não coincide consigo mesmo,
ele é desejo.                        

Se descobre que ama...
não só em Dostoievisk,
mas em Pessoa,
na massa de Sodré
e também em Patativa do Assaré.

Se descobre que ama...
ao ler Cem anos de solidão,
Macunaíma, Dom Quixote, 
mas também dançando um xote.

Se descobre que ama...
lendo lendas,
de Zorro a Don Juan,
de Iara a Iemanjá,
Seja em Salvador, Paris ou Quixadá.

Se descobre que ama...
ao cantar Bye bye Brasil,
O que é o que é
Canto de Ossanha,
ou a internacional,
tudo de forma emocional.

Se descobre que ama...
ao fazer amor na sala,
na cozinha, no banheiro,
debaixo do chuveiro.
Já tendo o coração devorado,
deixado a cela onde estava enjaulado.

Se descobre que ama...
quando se declama
se veste a fantasia
e se acredita na inversão,
onde pobre vira rico,
assalariado vira patrão,
qualquer um se torna até Platão.

Se descobre que ama...
ao entender Joana D'Arc, Heloísa, Tiradentes, Che Guevara ou Fidel,
para citar doadores de coração,
desses que participaram da grande procissão.

Se descobre que ama...
ao ler Romeu e Julieta,
fazer conexão com Tristão e Isolda,
enxergar Capitu,
e também Diadorim.

Se descobre que ama...
indo a Holanda,
Do Sérgio ao Chico,
tudo bem de mansinho, devagarinho,
quase a pé,
de Salvador a Fortaleza,
com dúvidas e incertezas.

Se descobre que ama...
Na Roda Viva...
na democracia,
no dia da criação,
na greve geral,
em questões de vida e morte,
de qualquer sorte...

Se descobre que ama
quando não se reclama,
do coração alegre ou contido,
agora singido,
mastigado, comido,
triturado.

Se descobre que ama...
na fidelidade,
no coração partido,
desse de um tipo messiânico,
barbarizado.

Se descobre que ama...
sendo um humanista,
profeta marginal,
não submisso aos horrores do capital.

Se descobre que ama...
ao não vender o coração ao cozimento,
ele é simplesmente doado,
entregue ao outro para ser mastigado,
e esse outro ser alimentado.

Se descobre que ama...
quando o outro está nutrido,
recheado de vida,
energia que pulsa com vigor,
e faz circular sangue com ardor.

Se descobre que ama...
ao sangue jorrar,
ao ser bombeado com fervor,
prazer e dor.

Se descobre que ama...
ao ter o coração descolonizado,
por Fagner, Belchior ou Flávia Wenceslau,
em pleno carnaval,
o que resta...
beijo na boca
e uma transa louca.

Se descobre que ama...
quando o coração comido,
goza ao anoitecer, amanhecer,
ou entardecer.

Se descobre que ama...
quando a libertação acontece, o véu é retirado,
o vestido rasgado.

E quanto a eu e você?
Os corações já foram arrancados,
postos lado a lado...
e por nós devorados!

Everton Nery Carneiro

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